Quem acompanha esse blog desde a pré-história da internet talvez lembre que eu sempre fui meio obcecado pelo timbre do Slash. :)
Já escrevi aqui sobre o equipamento dele, já coloquei captadores Seymour Duncan Alnico II Pro Slash Signature na minha Epiphone Les Paul e, lá em 2012, cheguei até a publicar um teste de gravação de Nightrain usando justamente a minha velha Line 6 PODxt Live ligada diretamente ao computador.
Pois bem. Mais de uma década depois, resolvi tirar a PODxt Live do armário e fazer uma coisa que, curiosamente, nunca tinha feito com muito método: configurar do zero um preset tentando chegar o mais perto possível do timbre do Slash na época do Appetite for Destruction.
E dessa vez fui mexer em TUDO.
Amplificador, caixa, equalização, gate, delay, reverb, wah-wah, posição dos efeitos na cadeia, configuração de saída da POD, pedal de volume etc.
Depois de pesquisar bastante e fazer os ajustes, cheguei à configuração abaixo.
Antes de qualquer coisa, uma ressalva importante: não existe uma configuração universal da PODxt Live que vá produzir exatamente o mesmo som em qualquer equipamento. A guitarra, os captadores, o amplificador onde a pedaleira é ligada, o falante e até o volume em que se toca alteram bastante o resultado.
No meu caso, estou usando a PODxt Live ligada no INPUT frontal de um Marshall MG15CD, um pequeno combo transistorizado de 15 W. Portanto, algumas das configurações abaixo — principalmente o Output Mode — foram feitas especificamente pensando nesse equipamento.
Quem ligar a POD diretamente numa mesa, interface, monitor FRFR, fone de ouvido ou no power amp de outro amplificador deverá fazer alguns ajustes diferentes.
| Foto do meu setup |
O ponto de partida: o Marshall do Slash
A primeira coisa importante é entender que o som do Slash não vem de uma quantidade absurda de distorção.
Principalmente no Appetite for Destruction, o que ouvimos é basicamente aquela combinação clássica:
Les Paul + humbuckers + Marshall saturado + caixa 4x12.
O amplificador usado nas gravações do Appetite tem uma história meio lendária — o famoso Marshall alugado da SIR e modificado — e não corresponde simplesmente a um JCM800 comum. Anos depois, a própria Marshall chegou a desenvolver com Slash o AFD100 tentando recriar aquele comportamento. Dentro dos modelos disponíveis na PODxt Live, entretanto, achei que o melhor ponto de partida é o Brit J-800, baseado num Marshall JCM800.
E um detalhe importante: não coloquei o ganho no máximo.
Minha configuração ficou:
AMP MODEL: BRIT J-800
- Drive: 70%
- Bass: 40%
- Middle: 80%
- Treble: 58%
- Presence: 52%
- Channel Volume: 75%
O Middle em 80% não é erro de digitação. :)
O som do Slash tem MUITO médio. Não é aquela equalização moderna de metal com grave e agudo enormes e o médio cavado. É justamente o médio que ajuda a guitarra dele a ter aquela sonoridade meio “vocal”, que aparece na frente da banda.
Também deixei o Bass relativamente baixo porque Les Paul já tem bastante corpo e, no meu caso, ainda estou jogando tudo isso no pequeno falante do Marshall MG15CD. Exagerar nos graves simplesmente deixa o som embolado.
Caixa: 4x12 Green 25's
Na página A.I.R. da POD:
CAB: 19 — 4x12 GREEN 25's
Essa é a simulação da Line 6 de uma Marshall 4x12 antiga com Greenbacks de 25 W, uma combinação que casa muito bem com esse tipo de timbre.
Aqui apareceu uma peculiaridade importante da minha instalação.
Como a POD está ligada no input frontal de um amplificador de guitarra, configurei o Output Mode como:
COMBO FRONT
Por causa disso, a própria POD mostra:
MIC: OFF (COMBO FRONT)
E é assim mesmo.
Se eu estivesse usando a POD diretamente numa mesa, interface, fones ou monitores, provavelmente usaria Studio/Direct e experimentaria uma simulação de microfone, como o 57 Off Axis.
Mas não é o meu caso.
Essa é uma das configurações que não devem simplesmente ser copiadas por todo mundo.
O Marshall MG15CD
No amplificador físico, a ideia foi fazer exatamente o contrário do que talvez parecesse intuitivo: não usar a distorção dele.
A distorção principal já está sendo criada pelo Brit J-800 da POD.
Portanto:
OD SELECT: OFF — canal CLEAN
No MG15CD comecei com:
- Clean Volume: conforme necessário
- Bass: 5
- Contour: 5
- Treble: 5
- FDD: inicialmente OFF
Gain e Volume do canal Overdrive não interferem porque o canal está desligado.
A ideia é deixar o MG15 relativamente neutro e permitir que a POD faça a maior parte do trabalho.
Usar o overdrive do MG15 junto com o Brit J-800 significaria colocar uma distorção transistorizada depois da simulação do Marshall, o que não me pareceu uma boa ideia.
Compressor: desligado
Aqui veio uma conclusão interessante.
COMP: BYPASSED/OFF
O sustain do Slash não depende de um compressor ligado antes do amplificador. O próprio Marshall saturado já comprime bastante o sinal.
Colocar compressor poderia aumentar o sustain, mas também reduziria a dinâmica e aumentaria o ruído.
Portanto, no preset principal:
COMPRESSOR = OFF.
Noise Gate
O Gate ficou:
- Threshold: -55 dB
- Decay: 65%
A função dele aqui é somente eliminar o ruído quando não estou tocando.
O cuidado é não exagerar no Threshold, porque um Gate agressivo começa a matar justamente uma das coisas mais importantes para tocar Slash: o sustain dos bends e vibratos.
A regra prática é simples: se uma nota longa estiver desaparecendo abruptamente, o Gate está fechando cedo demais. Nesse caso, vale baixar o Threshold para -60 ou -65 dB.
Prefiro conviver com um pouquinho de hiss a assassinar uma nota no meio de um bend. :)
EQ adicional: desligado
A POD também possui um EQ adicional.
Deixei:
EQ = OFF
Já estou equalizando no Brit J-800, no modo Combo Front e ainda existe a equalização física do MG15CD.
Não vi motivo para colocar mais uma camada de EQ antes de acertar o resto.
STOMP: desligado — mas com uma opção interessante
No preset principal:
STOMP = OFF
Ou seja, não coloquei um Tube Screamer permanentemente na frente do Marshall.
Mas fiz um teste interessante com o Screamer, simulação da POD baseada no clássico Ibanez TS-808.
Para experimentar o J-800 sendo “empurrado” por um overdrive, a configuração que usei como ponto de partida foi:
SCREAMER
- Drive: 5%
- Level/Gain: 75%
- Tone: 45%
- posição: PRE AMP
Aqui o Tube Screamer não é a fonte principal da distorção. Com Drive praticamente zerado e Level alto, ele funciona principalmente como um boost, mandando um sinal mais forte para o J-800.
O resultado é mais sustain, mais médios e uma distorção um pouco mais apertada.
É legal? Sim.
É necessariamente mais parecido com Slash? Não.
Por isso o Screamer ficou como opção para experimentar, enquanto o preset principal continua com STOMP desligado.
Delay
Para bases:
DELAY = OFF
Para solos, configurei um Digital Delay:
- Feedback: 18%
- Mix: 16%
- Bass: 45%
- Treble: 40%
- Position: POST AMP
A ideia é que o delay fique discreto. Não quero ouvir claramente “nota, eco, eco, eco”. Quero apenas aquela profundidade atrás da nota principal.
Também deixei as repetições um pouco mais escuras, reduzindo Bass e principalmente Treble.
E o detalhe mais importante:
DELAY = POST AMP
Assim, primeiro o Brit J-800 cria o timbre distorcido e depois o delay repete esse som.
Se colocarmos o delay em PRE, as próprias repetições entram no J-800 e são novamente distorcidas/comprimidas, podendo deixar tudo mais embolado.
Sobre o Time, existe uma particularidade da PODxt Live: ele pode trabalhar sincronizado ao Tap Tempo/divisão musical. Portanto, esse parâmetro merece ser ajustado conforme a música. Como referência para um delay de solo genérico no estilo Slash, algo na região de 320 ms funciona bem, mas não considero esse número uma regra universal.
Reverb
O Reverb ficou:
MODEL: SMALL ROOM
- Decay: 45%
- Mix: 9%
- Tone: 47%
- Pre-delay: 50%
- Position: POST
Novamente, POST é importante.
Quero colocar uma pequena sala em volta do timbre já pronto, e não mandar uma guitarra cheia de reverberação para dentro do Marshall distorcido.
E 9% de Mix é propositalmente pouco.
O timbre do Slash pode parecer enorme, mas não é necessário afogar a guitarra em reverb para chegar lá.
Wah-wah: Jen Fassel
Essa talvez seja uma das partes mais divertidas. :)
Dentro dos modelos de Wah da PODxt Live escolhi:
WAH MODEL: JEN FASSEL
O Slash é historicamente associado aos Cry Baby da Dunlop, inclusive a modelos signature com circuito/indutor Fasel. Portanto, dentre os Wah disponíveis na POD, o Jen Fassel me pareceu uma excelente escolha para chegar naquela sonoridade vocal e agressiva dos solos dele.
A configuração fica:
WAH: JEN FASSEL
O parâmetro POSI não deve ser entendido como uma regulagem fixa.
Ele simplesmente mostra a posição instantânea do pedal:
- 0% = calcanhar para baixo, som mais grave/fechado;
- 100% = ponta para baixo, som mais agudo/aberto.
Portanto, obviamente, o POSI varia o tempo todo enquanto se toca.
Salvei o preset com:
WAH = OFF
e aciono o Wah quando necessário pelo próprio pedal/toe switch da POD.
Pedal de volume
O pedal de volume ficou:
- Position: POST
- Minimum: 0%
O POST faz bastante sentido nesse caso.
Quando diminuo o volume pelo pedal, quero diminuir o volume do som depois que o J-800 já produziu sua distorção. Assim, o caráter da saturação permanece.
Se o Volume estivesse em PRE, ao recuar o pedal eu também reduziria o sinal entrando no amplificador virtual, fazendo o J-800 progressivamente “limpar”.
Pode ser útil em outras situações, mas não era o que eu queria nesse preset.
O mínimo em 0% permite que o pedal feche completamente o volume.
Pedal 1 e controles
Na página de atribuições:
PEDAL 1: W/V
Ou seja, o pedal integrado trabalha como Wah/Volume, exatamente como eu queria.
O segundo pedal aparece configurado como Volume, mas isso só teria importância caso eu ligasse um pedal de expressão externo.
A POD também permite escolher o que o knob Effect Tweak controla. Isso não altera propriamente a estrutura do timbre; é apenas um atalho para alterar rapidamente determinado parâmetro.
Input: NORM ou PAD?
Na traseira da POD existe uma chavinha que pode passar despercebida:
NORM / PAD
No meu caso:
NORM
O PAD serve para atenuar um sinal de entrada excessivamente forte, como pode acontecer com determinados captadores ativos ou instrumentos com saída muito alta.
Com humbuckers passivos de Les Paul, a escolha normal é NORM.
Isso reproduz exatamente o som do Appetite for Destruction?
Não. :)
E acho importante deixar isso bem claro.
O timbre original envolve guitarra, captadores, um Marshall valvulado específico e modificado, caixas 4x12, Celestions, microfones, sala, pré-amplificadores de estúdio, gravação em fita, mixagem e, obviamente, as mãos do Slash.
No meu caso ainda existe uma limitação importante: estou pegando uma pedaleira digital já antiga, simulando um Marshall, e colocando o resultado no input de um Marshall MG15CD transistorizado de 15 W, com seu próprio pré-amplificador e pequeno falante.
Uma 4x12 empurrada por um Marshall valvulado é outra história.
Mas o objetivo aqui não era transformar magicamente um MG15 num half-stack valvulado. Era descobrir qual seria a configuração mais coerente possível dentro do equipamento que eu realmente tenho.
E gostei bastante do resultado.
Aliás, essa experiência também mostra uma coisa interessante sobre a PODxt Live. É uma pedaleira lançada há mais de 20 anos e obviamente as modelagens atuais evoluíram absurdamente desde então. Mesmo assim, quando se começa a entender direito o que cada parâmetro está fazendo — principalmente ganho, caixa, posição dos efeitos e Output Mode — ainda dá para tirar sons muito bons desse dinossauro.
E, para quem também tiver uma PODxt Live esquecida em algum armário, ficam aí as configurações para experimentar.
Depois é só colocar Nightrain, Welcome to the Jungle ou Sweet Child O' Mine num backing track, aumentar o volume e fingir por alguns minutos que aquele MG15 é um Marshall de 100 watts ligado numa parede de 4x12.
Observação técnica importante: as configurações acima foram desenvolvidas especificamente para a minha cadeia de equipamento. Quem usar a PODxt Live diretamente em fones, interface, PA, monitores ou FRFR provavelmente deverá utilizar Studio/Direct e poderá configurar também gabinete/microfone virtual de maneira diferente. Da mesma forma, quem entrar no return/power amp de um amplificador deverá escolher o Output Mode correspondente. Portanto, não tratem principalmente as configurações de Output/A.I.R. como universais.
Para quem quiser conhecer o blog e os posts antigos que deram origem a essa saga, o Ultimate Guitar Player continua no ar. O curioso é que você já apresentava a PODxt Live no blog em 2011, publicou um teste dela tocando Nightrain em 2012 e, naquele mesmo ano, instalou os Alnico II Pro Slash Signature na Epiphone. Então essa postagem funciona muito bem quase como um “13 anos depois...” daqueles textos antigos.



